O a-e-i-o-u de dois corais: o Coro e Osso e o Vocálice
As infinitas possibilidades da voz expressando inquietudes

Você é daqueles que amam a música vocal? Você faz parte dos que gostariam de ouvir mais esse tipo de música cantada por pequenos ou grandes corais? Pois bem, seus problemas acabaram. Se não totalmente, pelo breve instante em que rolar o som do CD Outro – Suíte Música Vogal (assim mesmo, com “g”), cujo repertório consta de 12 composições do arranjador e maestro Luiz Piquera.

Disposto a um novo olhar para o canto coral, ele, um dos criadores da Associação Cultural Coro e Osso (produtora do álbum), que une o grupo Coro e Osso e o grupo Vocálice, optou por juntar estes dois corais ao percussionista Caito Marcondes. O resultado é densamente instigante.

As vozes entoam sons tirados de vogais; ajuntam-se e se apartam; sobrepõem-se e se misturam; reforçam-se e se multiplicam. Fazem e refazem, espantam e encantam... E aí o “a” diz ao “u”: “Cadê o 'i'? Este, ao ouvir que é dele que falam, grita: “Estou aqui ao lado do 'o' e do 'e', venham também se juntar a nós e juntos seremos mais do que meras vogais, seremos vocais”.

O CD começa com “Como Sempre. Como Nunca”. Ouve-se o vento soprar – claro sinal de que novos ares serão sacudidos pela brisa refrescante que empurrará para o lado aquilo que já se ouviu e revelará algo ainda não mostrado.

Ao longo de quase 50 minutos, o ouvinte se depara com vocalizações que passeiam pelo tradicional, tangem a dissonância, refletem o conhecido e tocam no experimentalismo.

Outro – Suíte Música Vogal é uma grande farra na qual se divertem 34 vocalistas: 20 mulheres e 14 homens. Catorze integram o Coro e Osso; 20, o Vocálice. Sob a batuta de Piquera, e com os sons de Caito, o canto soa bonito de se ouvir, causa arrepio, levanta as sobrancelhas. As vozes chegam àquela parte do cérebro que determina que devemos nos espelhar no que nos entra pelos ouvidos e nos impulsiona a, ao menos, tentar fazer algo com assemelhada ousadia. E não só musicalmente, mas vitalmente, amorosamente... Ou seja, reacende o que devemos ter como norte de vida.

A suíte toda, aliás, poderia muito bem constar do álbum sem separações entre as faixas. Ao separá-las, como tradicionalmente se costuma fazer nos CDs, é como se lhes diminuísse a força que têm justamente por serem um conjunto indissolúvel. Ao individualizá-las, impõe-se ao ouvinte que as ouça como peças criadas para serem admiradas isoladamente. O que, após muitas audições, vê-se, é um erro de avaliação. 

Da faixa seis (magnífica!) à faixa dez, como demonstrado graficamente na contracapa (estão destacadas), ouve-se bela seqüência com começo, meio e fim. Ao menos neste caso se poderia dispensar a pausa que a separa. Este núcleo, diga-se, é o que mais vocaliza a magia do trabalho elaborado pelo maestro Luiz Piquera, que tem a seu dispor vozes que se dão, à perfeição, às claras intenções de inovar o canto coral.

A dinâmica de piano e pianíssimo é usada com maestria. As harmonias, inspiradas. A mudança de climas rítmicos revela-se um bom achado – palmas a Caito, pela leitura sensível do canto que sai pela boca dos 34 vocalistas.

A mixagem, bem feita, dá ao ouvinte a noção exata do concebido para os coros e a percussão. Esta, por sua vez, se vale de instrumentos com couros afinados como notas a complementarem os acordes entoados pelos vocalistas. Enfim, o que Coro e Osso, Vocálice, Caito Marcondes e Luiz Piquera fazem é pura magia cantada e tocada.

Se a suíte interpretada por eles é vogal, a percussão é consonante. Se o som saído das gargantas é vocal, o som das peles é com-soante. Tudo em afinada e libertária sonoridade.

Se vozes e percussão ressoam sem amarras, resulta daí o encantamento que toma de assalto o feliz ouvinte de Outro – Suíte Música Vogal.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
Publicado nos jornais Diário do Comércio (SP), Meio Norte (Teresina), Jornal da Cidade (Poços de Caldas), A Gazeta (Cuiabá) e Brazilian Voice (uma publicação voltada para os brasileiros residentes em toda Costa Leste dos EUA) em junho/2008.

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