Coro & Osso: “Dezoito”

Falar do Coro & Osso me põe sentimental. Seus integrantes são assim – sentimentais. No canto, eles preservam a emoção que no fundo mais fundo de cada um de nós – tristeza não – teima em sobreviver.

Sábado último, no Pantheon de noites memoráveis, lá estávamos nós outra vez, mergulhados no clima sentimental que o Coro & Osso irremediavelmente instala. Tendo acompanhado a escalada de sucessos do grupo, lá estava eu, platéia inarredável, para viver mais um: “Dezoito”. Dezoito anos, dezoito montagens.

Hoje, a Associação Cultural Coro & Osso congrega os grupos vocais “Coro & Osso”, “Vocálice” e “Comadre Maninha”, além do “Coro Escola”, chocadeira de vozes e talentos. Em “Dezoito”, todos eles reunidos, 40 vozes sob a batuta do maestro, compositor, arranjador, violonista, professor e animador cultural Luis Piquera. Pertencer ao Coro & Osso – ou ser platéia do Coro & Osso – é ser afortunadamente contemporâneo dessa iluminada figura humana, que recebeu tantos dons e os distribui à farta. 

Em “Dezoito”, a alegria contagiante dos integrantes do Coral de Santa Lúcia, também regido por Piquera, e o transbordamento esfuziante da Zefa, que não esconde a emoção de agora ser um deles: “Eu sabia que era bom, mas não imaginava que era tanto”.

Se nos inícios, estáticos no palco, os integrantes do Coro & Osso desfiavam um repertório típico dos grupos vocais, a partir de “Descobrimento do Brasil” (“O Outro Lado da Janela”) o humor, a multiplicidade de talentos e o calor humano de sua convivência informal progressivamente ganhariam o palco. Com a decisiva participação de Alessandra Mariani, “Lilás” (espetáculo/CD com canções de Djavan) prenunciava o salto que se seria “Outro”, trabalho autoral também registrado em CD, ponto de chegada, altíssimo, das pesquisas sobre o “coro cênico”.

Em “Dezoito”, na companhia dos outros grupos que compõem a Associação, o Coro & Osso festeja as conquistas desses anos todos. E só podia ser show, que já nasce pronto para seguir carreira.

Em “Dezoito”, o maestro Piquera revela ainda seu lado inventor. É ao “chinelofone” (instrumento feito com tubos de PVC), portanto, a chineladas, que, juntamente com Célio Gardini, ele faz percutir “Oferenda”, que compôs para a abertura. E tem início um passeio pelo melhor da música brasileira, de Noel e Jobim à geração de ouro da MPB.

 Destaquem-se o apuro técnico do Coro & Osso em “Samba do Avião” (Jobim), um ápice; a afinadíssima presença feminina do quinteto “Comadre Maninha”, em “Louva Deus” (Milton); o irresistível apelo dançante de “Toda Menina Baiana” (Gil), que o maestro rege dançando, violão em punho; a harmonia perfeita do conjunto e das várias formações; e, costurando o roteiro com a canção “Estrela D’Alva”, de Antonio Nóbrega, a atuação de Ricardo Pinotti, carismático e musicalíssimo ator que desponta em meio a tantos outros grandes talentos.

Aos 18, o Coro & Osso parece definitivamente capaz de todos os vôos. Vai que eles voltem a pousar entre nós, nesta Morada do Sol que já tantas vezes lhes retribuiu as oferendas com aplausos entusiasmados.  
  
      


Zé Pedro Antunes
Professor de literatura alemã na Unesp – Araraquara
Texto publicado no Jornal Tribuna Impressa de Araraquara em 30/04/2008

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